Ventos de Mudança. Energia e Poupança...

 

NOTÍCIA

Energia de borla

A culpa do défice tarifário é da subida dos combustíveis e, sem renováveis, a electricidade seria mais cara. Críticas ao manifesto contra a política energética.

"Se andamos a oferecer energia a Espanha, porque não me oferecem a mim que já pago tanto por ela?". Este é o recente comentário de uma cidadã comum que interveio na TSF sobre o tema das renováveis, e que expressa bem a visão do cidadão comum sobre a recente polémica ligada às energias renováveis. Curiosamente, uma visão com bastante mais sabedoria do que outras visões que têm vindo a ser veiculadas por ilustres especialistas do sector.

Os preços baixos verificados no mercado devem-se essencialmente ao facto da maior parte da energia que consumimos ser produzida instantaneamente.A forte chuva e vento sentidos este inverno produziram muita energia. Durante a noite, quando dormimos e a maioria das fábricas estão paradas, verificou-se haver energia em excesso. Como não a conseguimos guardar e transferir para outros períodos, ela passou a valer virtualmente zero. Exactamente como o ar que consumimos. Não podíamos viver sem ele, mas como há tanta abundância, é de "borla".

O paradoxo de tudo isto é que, de repente, para alguns, preços baixos no mercado são sinónimo de "aumento brutal" de custos de energia. E já não é o cidadão comum a dizê-lo. São ilustres economistas que o dizem. Oferta em excesso no mercado passou, surpreendentemente e contra todas as regras da economia, a ser causa de aumento de preço. Dizem-no por notória falta de visão de curto e longo prazo.

No curto prazo, as energias renováveis têm já uma forte influência nos preços de mercado. Aos preços actuais dos combustíveis esperar-se-ia que a produção de electricidade, com base no gás natural, custasse pelo menos 50 a 60 euros por MWh.

Sem energias renováveis, o preço da electricidade teria sido pelo menos 20 euros/MWh mais caro, o que no total de um ano representa cerca de 1.000 milhões de euros poupados. Um pouco mais que o actual sobre-custo das renováveis, mas alguém se esqueceu deste pequeno pormenor...

No longo prazo, o que muitos sabem, mas não querem dizer, talvez porque não lhes interessa, é que em 2020 já não haverá subsídio para muitas das eólicas entretanto instaladas, mas as centrais a carvão ou gás natural continuarão a ter de comprar os seus combustíveis a preços cada vez mais caros durante muitos e bons anos.

Em 2020 o enorme aumento da oferta de energia que o movimento das energias renováveis está a gerar empurrará de forma "brutal" os preços de energia para baixo. E aí, pagaremos todos valores muito mais baixos, nós, os espanhóis, o cidadão comum e os empresários.

Custa-me ver tantos ilustres com medo da falta de competitividade e aumento de custos "brutal" aos consumidores. Esquecerem-se de criticar os custos escondidos na factura eléctrica que em nada contribuem para os consumidores, agora ou no futuro. Por que é que 7% dos preços pagos pelos consumidores em baixa tensão revertem directamente para os municípios, não servindo para pagar quaisquer custos do sistema eléctrico? É curioso que não existe equivalente taxa na nossa vizinha Espanha, mas não se vêem manifestos contra essa taxa.

O Governo decidiu que deveriam ser os consumidores domésticos a suportar grande parte dos sobre-custos das energias renováveis. Mas não foi também o mesmo Governo que decidiu e tem vindo a decidir em todos os Orçamentos do Estado manter o IVA da electricidade em 5%, beneficiando esses mesmos consumidores? Por que é que a electricidade produzida com combustíveis fósseis paga 5% de IVA e os combustíveis fósseis comprados directamente na bomba de gasolina pagam 21%? Quem critica esta discriminação positiva? Não vejo também manifestos nesta matéria.

A complexidade do tema é notória, principalmente tendo em consideração que não se entende bem onde acaba a factura da energia e começa o Orçamento do Estado. O actual novelo de lã da fiscalidade e custos de interesse económico geral na factura de energia não ajudam à racionalidade das decisões ou à clareza dos manifestos.

Mas a incompreensão e confusão do cidadão comum não decorre apenas da complexidade do tema, mas também da falta de honestidade intelectual de muitos dos argumentos que estão a ser esgrimidos. Estou habituado aos normais exageros das virtudes das energias renováveis, tentando atenuar algumas debilidades ou acentuar virtudes das novas energias. É normal que assim seja quando se está a tentar afirmar uma nova visão.

Confesso que tenho muito mais dificuldade em ver tantos ilustres economistas usarem as mesmas "armas" contra as renováveis. É talvez um sinal de maioridade das energias renováveis...

Atribuir o défice tarifário ao sobre-custo das renováveis é desonesto. O défice tarifário resulta essencialmente do enorme aumento dos custos dos combustíveis. Comparar o custo das renováveis com um custo de mercado, que só é tão baixo porque existem as mesmas energias renováveis é mais do que desonesto, é profundamente errado. Atacar a aposta em nova energia eólica com os custos da tecnologia do início da década é desonesto. O custo médio actual dos equipamentos instalados na década passada ronda os 90 euros por MWh, mas os últimos leilões para as novas eólicas resultaram em tarifas de 60 euros/MWh, apenas protegidas durante 12 a 15 anos. Onde está o aumento de custo brutal para o consumidor?

Dizer que as energias renováveis são irrelevantes em termos de energia, não considerando os biocombustíveis ou a hídrica como energias renováveis é desonesto. Ignorar a perspectiva de uma redução de 10% na nossa dependência energética primária com o exterior, que desde a última grande aposta nas energias renováveis - a grande hídrica - não ocorria, considerando-a irrelevante, é desonesto. Parece que mais vale ficar quieto. Porque tudo o que façamos será sempre irrelevante.

Criticar a aposta na bombagem hidroeléctrica, denominando-a de um "custo escondido" da energia eólica é, na minha perspectiva, outro erro gravíssimo deste manifesto, senão o maior. A bombagem hidroeléctrica não requer subsídios, é viabilizada 100% em mercado. Porquê? Porque o custo da energia no vazio tenderá para zero e em ponta o preço continuará a ser definido pelos combustíveis fósseis.

Em que país transferir energia de "borla" para quando ela é mais necessária deixou de ser uma função útil, com valor económico, para passar a ser só mais um sobre-custo? Aparentemente só em Portugal e só numa visão de curto prazo de alguns ilustres portugueses.

Nunca esperei ver pessoas que eu tanto respeito virem colocar em causa o Programa Nacional de Barragens com Elevado Potencial Hidroeléctrico. Grandes obras públicas, que ao contrário de outras, requerem zero subsídios e em vez de pesar para o Orçamento do Estado, ainda contribuem com muitos milhões. Já não se trata aqui de falta de visão de longo ou curto prazo, mas de uma cegueira irracional e profunda de quem quer ser do contra, só para ser do contra, prejudicando o país.

Confesso que esperava mais e muito melhor de um manifesto tão "ofendido" com a actual política das energias renováveis que anda a oferecer energia de "borla".

Miguel Barreto, Gestor e ex-Director Geral de Energia e Geologia

 

Dados retirados de:  http://economico.sapo.pt

 

 

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